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quarta-feira, 5 de março de 2008

Ainda o Socialismo

O Henrique Raposo, nova e excelente aquisição do Expresso, defende na sua primeira crónica no semanário aquilo que eu já tinha dito: A pátria alberga a esquerda totalitária (PCP), a esquerda circense (BE), a esquerda socialista (PS), a esquerda social-democrata (PSD) e a esquerda beata (CDS). Na hora da verdade, todos os partidos apresentam uma visão esquerdista da sociedade e do estado.
Como defendi anteriormente, o país está entregue a vários socialismos. Mais conservadores, mais libertários, os socialistas combatem-se com propostas liberais. Continuo a acreditar que essas só nascerão dentro do CDS.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Conservadorismo e Liberalismo (2)

Referi aqui a ideia desenvolvida por Hayek no "Constitution of Liberty" acerca do valor não-racionalizável da Liberdade.
A "Constitution of Liberty" é o que mais se assemelha ao que chamaria de manual político pessoal. Recomendo-o vivamente a todos os que, porque concordam ou discordam, queiram conhecer melhor os argumentos liberais. Além de estar belissimamente escrito (leio o sem problemas em inglês), está disponível em Portugal numa edição da Routledge. Comprei-o na FNAC (pelos vistos está indisponível).
Escreve então Hayek no capítulo 4 (Freedom, Reason and Tradition):
While the rationalist tradition assumes that man was originally endowed with both the intellectual and the moral attributes that enabled him to fashion civilization deliberately, the evolutionists made it clear that civilization was the accumulated hard-earned result of trial and error; that it was the sum of experience, in part handed from generation to generation as explicit knowledge, but to a larger extent embodied in tools and institutions which had proved themselves superior - institutions whose significance we might discover by analysis but which will also serve men's ends without men's understanding of them.
(Sub-capítulo 4)
Ou seja, Hayek considera, muito bem, a meu ver, que a experiência resultante de séculos e séculos de vida em sociedade produziu uma série de instituições que não eram antecipáveis a priori, nem, muitas vezes, compreensíveis a posteriori.
Mais abaixo:
The antirationalist tradition is here closer to the Christian tradition of the fallibility and sinfulness of man, while the perfectionism of the rationalist is in irreconcilable conflict with it.
Há aqui uma questão, não nego, que é da quais as tradições/instituições boas, quais as más, e como saber quais as que são benéficas, logo a manter, quais as prejudiciais, logo a eliminar. (Igonoremos aqui o facto de nem todas as tradições/instituições terem só efeitos positivos, nem só negativos, nem os mesmo efeitos sob todos os indivíduos). Ora o que Hayek afirma é que numa sociedade livre isso não tem que preocupar o colectivo, apenas o indivíduo que escolhe para si como decide viver.
It may well be that a nation may destroy itself by following the teaching of what it regards as its best men, perhaps saintly figures unquestionably guided by the most unselfish ideals. There would be little danger of this in a society whose members were still free to choose their way of practical life, because in such a society such tendencies would be self-corrective: only the groups guided by "impractical" ideals would decline, and others, less moral by current standards, would take their place. But this will happen only in a free society in which such ideals are not enforced on all. Where all are made to serve the same ideals and where dissenters are not allowed to follow different ones, the rules can be proved inexpedient only by the decline of the whole nation guided by them.
Sub-capítulo 9
Importa repetir o argumento: nenhuma nação está livre de se auto-destruir por seguir políticas erradas, ainda que bem intencionadas, que imponham um modo de vida a todos os seus cidadãos. Claro que para quem acredita que o ser humano é um ser capaz de racionalizar as instituições que melhor servem a sociedade isso pouco importa porque não iria acontecer com as instituições que idealizaram. Mas convinha lembrar que as nossas instituições não foram racionalizadas, e que foi exactamente isso que tentaram fazer Marx e Engels.

Aquilo que divide Conservadores entre Conservadores-Liberais e Conservadores-Socialistas é justamente a atitude perante a evidência, evidência que o Liberalismo reconhece e prossegue, de que o experimentado é melhor face ao desconhecido. É que Hayek também afirma:

There is an advantage in obedience to such rules not being coerced, not only because coercion as such is bad, but because it is, in fact, often desirable that rules should be observed only in most instances and that the individual should be able to transgress them when it seems to him worthwhile to incur the odiumwhich this will cause. (...) It is this flexibility of voluntary rules which in the field of morals makes gradual evolution and spontaneous growth possible, which allows further experience to lead to modifications and improvements. Such an evolution is only possible with rules which are neither coercive or deliberately imposed—(…)Unlike any deliberately imposed coercive rules, which can be changed only discontinuously and for all at the same time, rules of this kind allow for gradual and experimental change. The existence of individuals and groups simultaneously observing partially different rules provide the opportunity for selection of the more effective ones.
Sub-capítulo 6
E
(...) in such [a free] society, such tendencies would be self-corrective: only the groups guided by "impractical" ideals would decline, and others, less moral by current standards, would take their place.
(...)
The important question that arises here is whether the agreement of a majority on a moral rule is sufficient justification for enforcing it on a dissenting minority
Sub-capítulo 9
É portanto a liberdade de infrigir condutas morais e éticas numa sociedade livre (em que essas condutas são impostas por pressão social e não pelo estado) que faz as sociedades crescer e aperfeiçoar-se e as impede de se destruírem por condutas erróneas impostas.
No início do capítulo 4, Hayek cita Francis Lieber que em 1848 afirmava, acerca do conceito francês de liberdade:
The question whether this interference [by public power in society] be despotism or liberty is decided solely by the fact who interferes, and for the benefit of which class the interference takes place, while according to the Anglican view this interference would always be either absolutism or aristocracy (...)
Ou Socialismo, na minha ideia. Seja no entanto como quiseremos chamar aos que querem usar o poder do estado para impôr modelos de vida e moral aos cidadãos, é inegável que o Liberalismo é na sua raíz uma ideologia inegavelmente Conservadora.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Conservadorismo e Liberalismo

Algumas reacções mais violentas à minha asserção que o Liberalismo começava onde o Socialismo acaba vieram de quem se intitula Conservador e se via insultado de Socialista.
Serão os Conservadores Socialistas? Depende.
Confesso que a Ciência Política não é - ainda, porque tudo se alcança - o meu forte. Dediquei-me a ler o que pude sobre as origens do liberalismo, mas nunca perdi muito tempo com a outra doutrina que me atrai. Porque não entendo o Conservadorismo como filosofia de política pública e porque me sinto bem como Liberal-Conservador. Leu bem caro Conservador anti-Liberal, aqui o "perigoso Liberal" tem o desplante de se considerar Conservador - concedam-me que se pode ser Conservador sem acreditar Nele.
Tudo se divide quanto ao papel do estado - quem diria?. Se o objectivo é usar o estado para impôr ou beneficiar certos modelos de família, não contem comigo. Nem se o Conservadorismo é para servir para proteger certas indústrias nacionais por serem nacionais e com isso prejudicar todas as outras e os consumidores. Ou se ser Conservador é usar o Estado para impôr ao indivíduo e às colectividades certos "valores".
O meu Conservadorismo é viver e pensar de acordo com certos princípios que o tempo forjou e me permitem, com um certo grau de certeza, confiar neles sem os compreender (o perigoso liberal Hayek desenvolveu uma ideia parecida para a sua "Constitution of Liberty"). É reconhecer na minha família e no meu lar o fundamento do meu ser e pensar. É querer fundar um dia uma família dita tradicional. É ser contra a liberalização do aborto e adopção por homossexuais. E é não usar da força física e da coerção mas apenas da força do que sinto como verdade para que outros me sigam.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Porquê Liberal? (3)

As discussões políticas fazem parte da minha vida desde cedo. Com a sorte de ter amigos que se interessavem por "essas coisas" cedo fui o gajo de direita no nosso grupo - ainda que ser de direita não seja ser bicho raro aqui no Porto, mesmo entre malta nova. Daí a ter uma ideia coerente do que queria para o mundo ia um caminho longo. Foi graças à blogosfera (como aqui referi) que conheci e abracei as ideias liberais.
Blogosfera fora citavam-se ideias e livros que me eram desconhecidos, mas apelativos. Lembro me particularmente do António Costa Amaral ter o hábito de citar obras. E a vantagem dessa obras, as liberais, é que estão disponíveis gratuitamente online.
Comecei por ler um livro curto e conciso sobre Economia que, apropriadamente, se chama "Economics in One Lesson", do jornalista-economista Henry Hazlitt. Daí passei ao livro em que Hazlitt se inspirara: Ce qu'on voit et ce qu'on ne voit pas, que li em inglês (pdf).
A partir daí foi um sem-número de obras disponíveis para aqueles que se querem auto-ensinar nas artes da Economia e da filosofia liberal. (A obra completa de Bastiat é imperdível, vol.1, vol.2) Talvez tenha oportunidade de postar aqui alguns ensaios curtos.

E enfim, assim nasceu um liberal num país constitucionalmente socialista. Os caminhos possíveis para tirar o país desse marasmo do pensamento único serão vários, e não haverá uma fórmula milagrosa. Tentemos algumas aqui. Se for militante do CDS e lhe for simpática a ideia, assine a petição aqui.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Porquê Liberal? (2)

Antes de mesmo saber ao certo o que pensar da política já votava no CDS. Não sei hoje reconstruir porquê. Acho que tinha que ver com a minha visão positiva da CDU alemã, país cuja política acompanhava e acompanho com muito interesse. Foi aliás por causa da Alemanha que me apareceram as primeiras fúrias liberais. Não me esqueço do dia em que Gerhard Schröder, chanceler alemão à data, entrou na Phillip Holzmann (construtora civil alemã) e saiu como salvador dos empregados que se manifestavam à porta contra a falência da mesma. Dois anos depois, sabe Deus com quantos Marcos de dinheiro dos contribuintes e a Holzmann faliu na mesma. Na altura cheirou-me a esturro e fiquei incomodado com toda a popularidade que o chanceler tirou do seu acto heróico. Heróico e social.
É fácil ser herói com o dinheiro dos outros.

Houve outra coisa que me fez juntar ao CDS. A autobiografia do Professor Freitas do Amaral. Ainda que escrita já depois do seu afastamento do CDS, o livro retrata bem como era difícil um partido portar-se de forma decente no pós-25-de-Abril. Tenho para mim que foi o CDS o único que o conseguiu.
Claro que esse CDS é outro do de hoje em dia, e isso eu não percebia na altura. Era o CDS que governava com o PSD como governava com o PS. O CDS que se queria de centro. No entanto a leitura da história da fundação do partido trouxe-me para o lado daqueles que vejo como herdeiros dum espírito de luta pela liberdade em momentos em que isso era pago com difamação, prisão e perigo de vida.

Já depois de uns anos de militância na Juventude Popular, a experimentar a democracia-cristã (lá está a influência da CDU) - para descobrir que a democracia-cristã em Portugal é uma espécie de social-catolicismo que não me atrai - passando pelas drogas pesadas do conservadorismo - demasiadas vezes saudosista de tempos que não me interessam -, vim dar a um pensamento coerente e atraente. Diferente do discurso habitual. Lógico e intrigante. E curiosamente não foi dentro do CDS ou a da JP que me converti.
Se me tornei liberal devo-o aos blogues.

continua

Porquê Liberal?

Enquanto espero que se juntem outros colaboradores aqui ao blogue, vou maçar os nossos leitores a tentar explicar porque diabo achei um dia que havia de ser liberal.

Colar etiquetas destas (a nós próprios ou a outros) pode ser perigoso. Vê-se no PS, vê-se na blogosfera liberal e via-se na oposição ao Estado Novo: uns são mais socialistas, outros são os verdadeiros liberais, ainda outros foram a verdadeira oposição. Para facilitar definirei liberal por aquilo que não é: no que eu conto como o espaço liberal enquadram-se todos os que não são socialistas. Dito por outras palavras, todos os que não acreditam que deve ser a comunidade, o estado ou o governo a controlar a propriedade, os meios de produção, a economia em geral. Juntando a isto uma noção profunda de liberdades individuais de expressão, pensamento e afins estão encontrados os que chamo de liberais. Como tal não aspiro a que me colem um rótulo de ser seguidor desta e daquela escola de pensamento, deste e daquele filósofo, economista, etc. Que digam de mim que não sou socialista que me dou por feliz.

E postas assim as coisas, poderíamos ficar contentes: não-socialistas devia haver muitos em Portugal. Pois mas não há. Que servisse esta nossa conglomeração para demonstrar isso, e já teria feito um enorme serviço ao país. BE, PCP, PS, PSD são tudo partidos vincadamente socialistas. Só o CDS pode ter uma intervenção liberal, o que aliás pode (e penso que deve) acontecer sem tornar o CDS num partido liberal.

continua